A língua italiana e os dialetos

O italiano é o idioma oficial da Itália, não há dúvidas, mas você sabia que o italiano falado hoje em dia era o dialeto da Toscana?
Isso mesmo, a língua italiana
descende historicamente do toscano literário, cujo uso foi iniciado com os grandes escritores Dante Alighieri, Francesco Petrarca e Giovannni Boccaccio por volta de 1300, e então foi evoluindo para o italiano atual.
A língua italiana era falada apenas por uma pequena parcela da população no momento da unificação política no Reino da Itália
em 1861, e depois foi difundida diante da alfabetização obrigatória nas escolas e, por incrível que pareça, teve contribuição determinante com a popularização da televisão mais recentemente. Ainda assim, a soma dos falantes de dialetos e dos bilíngues, que falam tanto o italiano como os dialetos, supera os que falam apenas italiano.
Segundo os dados estatísticos mais recentes, 44% dos italianos falam exclusiva ou predominantemente o italiano, e 51% o alterna com uma língua regional ou outra língua, e somente 5% falam exclusivamente o dialeto ou outro idioma diferente do italiano.

Apesar de ser difícil produzir uma estimativa da quantidade de idiomas que existem no território italiano, o Instituto Nacional de Estatística (Istat) estima em pelo menos 11 mil o número de dialetos no país.

A Origem dos dialetos

Muitas regiões italianas tiveram influências linguísticas diferentes antes mesmo da conquista da Itália pelos romanos: o norte da Itália teve influência celta, a região central tinha a influência etrusca, e o sul da Itália dos itálicos e gregos. Tudo isso deu origem a uma diversificação no modo de se falar o latim, a língua oficial do Império Romano.

A longa história de separação em pequenos Estados e a colonização sofrida pela a Itália por potências estrangeiras, especialmente França, Espanha e Ástria-Hungria, entre a queda do Império Romano e a unificação italiana em 1861, foi uma grande oportunidade e aumentou a diversidade linguística no país.

Entretanto, a expressão “dialetos italianos” é imprecisa visto que os dialetos não derivam do italiano padrão, mas diretamente do latim falado, frequentemente chamado de “larim vulgar”: foi o italiano que foi derivado dos dialetos e não o contrário.

Os dialetos permanecem como línguas comuns da população até a década de 1950. Com o crescimento progressivo da alfabetização, o italiano padrão se tornou gradualmente aceito como língua nacional. Até a Segunda Guerra Mundial, as pessoas das classes mais baixas, que não foram à escola ou não tinham uso para a língua nacional, continuaram a usar seus próprios dialetos nas suas vidas cotidianas. Foi provavelmente nesse período que surgiu a marginalização do uso dos dialetos, visto que era um sinal de baixo status social. Depois disso, essa tendência de marginalizar as pessoas que usavam os dialetos diminuiu.

Os dialetos nos dias de hoje

O italiano é o quarto idioma mais estudado no mundo segundo um estudo recente da organização de linguística SIL Internacional, mas por que tantos dialetos ainda sobrevivem no país da bota? “O dialeto ainda é a língua da afetividade, falada com as pessoas mais próximas, amigos e parentes, em situações de informalidade. O italiano e o dialeto coexistem, cada um com suas funções sociais reconhecidas pelos falantes, que conseguem escolher entre um e outro sistema linguístico de acordo com o ambiente e a situação”, explica Cristiana Gotsis, professora do Instituto Italiano de Cultura do Rio de Janeiro.   

Segundo a docente, “esse uso alternado, muitas vezes até mesmo dentro da mesma frase, faz com que os dialetos consigam sobreviver”. “Isso não significa que ainda não exista um certo preconceito com quem faça uso exclusivo do dialeto, mas vivemos um momento de reapropriação da ‘cultura dialetal’, seja por parte de cultores de um determinado dialeto, com a criação de páginas online, por exemplo, seja na comunicação mainstream”, acrescentou Gotsis.
De acordo com a professora, “o dialeto é usado na produção cinematográfica, na publicidade, nas placas de lojas e na comunicação online”. “Nas mídias sociais, por exemplo, é usado para reforçar o sentido irônico de uma frase”, afirmou.

Uma das séries de maior sucesso na Itália recentemente, “Gomorra”, inspirada no livro homônimo do jornalista italiano Roberto Saviano e que narra os bastidores da máfia Camorra, trouxe à tona o dialeto napolitano.   

“O sucesso da plataforma Netflix com certeza pode contribuir a estimular um maior interesse pelos dialetos italianos, mas é importante lembrar que eles nunca perderam a importância, sobretudo no sul da Itália, onde ainda hoje constituem a língua usada nas relações informais”, ressaltou a diretora do Instituto Italiano de Cultura do Rio, Livia Raponi. Para ela, o napolitano é o dialeto mais falado e aprendido, inclusive no Brasil, devido ao sucesso de autores e músicos de Nápoles no cenário internacional. Outros que se destacam são o milanês, o vêneto, o romanesco e o siciliano. “Na história da dialetologia, foram usadas várias formas de classificação dos dialetos italianos. Além das pequenas diferenças locais, podemos classificá-los em quatro grandes famílias: os dialetos do norte; os toscanos; os do centro e os do sul”, afirmou Gotsis.   

Conforme dados do Istat relativos a 2015, último ano com números disponíveis, 32,2% da população fala dialetos misturados ao italiano em família e com os amigos. Esse uso é influenciado pelo nível de instrução e pela área geográfica. Com isso, as regiões onde se fala mais dialetos são o sul e as ilhas da Sardenha e Sicília, que têm índices socioeconômicos piores que os do norte; e o nordeste, sendo que o Vêneto é a região com maior difusão.   

“Embora há quem ache que os dialetos sejam um italiano não correto, eles são idiomas regionais e, em alguns casos, como o napolitano, alcançaram dignidade literária, graças a escritores e artistas que criaram obras hoje conhecidas no mundo inteiro”, defendeu Raponi.   

Brasil – No Brasil, descendentes de imigrantes italianos conseguiram fazer o dialeto talian ser considerado uma referência cultural brasileira pelo Ministério da Cultura.   

Com origens do norte da Itália, o dialeto é conhecido como o “vêneto brasileiro”. Porém aqui ele representa uma mistura de vários dialetos italianos das regiões de Vêneto, Toscana, Lombardia, Trentino Alto-Ádige, entre outras. “Com certeza os mais velhos, detentores das tradições, são os que mais falam em dialeto. O uso do dialeto reforça a cultura local e os costumes. Já os mais jovens, uma vez na escola, vão aos poucos abandonando o uso e mantendo um conhecimento passivo: conseguem entender, mas dificilmente continuam falando”, observou Gotsis.   

A especialista ainda lembrou que em Serafina Corrêa, no Rio Grande do Sul, o “talian” é idioma co-oficial, conforme lei municipal em vigor desde 2009. “Esses movimentos de preservação podem, sim, ajudar a manter a vitalidade dos dialetos também nas novas gerações”, finalizou. 

Fonte: Ansa Brasil, Italianistica Online.

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