Uma viagem pela história da língua italiana – dos promórdios à atualidade

Hoje vamos fazer uma viagem pela história do idioma italiano, dos primórdios à atualidade. Como sabemos, a língua italiana deriva do latim, sendo a segunda que mais se aproxima do original. Porém inicialmente, existiam dois tipos de latim falados até à Idade Média – o latim clássico falado pelos romanos mais cultos e influentes ou pelos moradores da área original de Roma, mais complexo, e o latim vulgar, que era falado pelos soldados romanos, mercadores, colonos de terras e pelos povos conquistadas pelo Império Romano – diferente do latim clássico que era usado apenas pela corte e por pessoas cultas.
Séculos de conquistas e sucessões foram necessários para a consolidação do idioma como o conhecemos na atualidade.
Com a ocorrência de misturas de dialetos locais com o latim formaram-se várias das línguas atuais, tais como o português, o espanhol, o francês, o romeno e muito da essência do inglês. Nós escrevemos um post sobre os dialetos italianos e você pode ler aqui

Mas para entender a origem da língua italiana, antes é necessário entender um pouco da história da formação do país e de seu território como um todo…

Nossa história começa em 800 a.C. Naquela época, a região que agora corresponde à Itália e à Córsega era habitada por numerosas tribos tais como os etruscos (região central),  os gregos (sul da península e da Sicília), os celtas (no norte da Itália), os fenícios também estavam presentes, assim como muitas outras etnias.
Obviamente todos esses povos não possuíam uma língua única. No entanto, apesar das suas diferenças, essas linguagens eram relativamente próximas. Havia cerca de quarenta línguas na região.

A criação da cidade de Roma

Com a fundação de Roma em 753 a.C. pelos etruscos, sabinos e romanos mudou a situação do futuro território italiano. Assim, rapidamente, seguiram-se muitas guerras de conquista da região italiana. Os romanos também conquistaram um grande número de regiões adjacentes. Em 200 a.C., o Império Romano correspondia a toda a Europa ocidental hoje complementada pelo norte da África, Inglaterra, Armênia e Arábia.
Assim, o latim se exportou para muitos países conquistados, exceto aqueles nas extremidades do império.

Conquistas diferentes que levaram a um mosaico linguístico

Pouco a pouco, o Império Romano foi enfraquecendo. Isso incitou o desejo de conquista aos povos vizinhos. Com todas essas conquistas, a Itália experimentou uma verdadeira mistura de idiomas, mais de 1000, pois todos esses povos trouxeram com eles línguas estrangeiras que influenciaram a formação do idioma.
Começou com os povos germânicos, depois os lombardos, sem esquecer os francos ou uma certa influência da língua árabe, dos normandos e dos sicilianos.

Além disso, durante a Idade Média, os italianos também emprestaram certas palavras francesas medievais.
Entre o terceiro e o quinto séculos d.C., com o declínio do Império Romano, a fala (il parlato) torna-se cada vez mais diferenciada da língua oficial. É como surgem os idiomas da Europa Ocidental. Desse modo, na Espanha fala-se o latim-espanhol, na França o franco-latino, na Grã-Bretanha o anglo-latino, e assim por diante.
Com as invasões bárbaras, após o colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), ocorre a fragmentação definitiva da unidade linguística na Itália. Os invasores, mesmo que tenham aprendido latim, falam do seu jeito e, então, algumas peculiaridades de suas línguas maternas entram nas línguas faladas na Itália. Por exemplo, na Itália ainda são usadas palavras de origem lombarda (os lombardos governaram o norte da Itália por cinco séculos, de 568 a 774 d.C.): ciuffo, graffiare, guancia, ricco, scherzare, schiena, zanna.

As origens e o século XIII (Il Duecento)

Após a queda do Império Romano do Ocidente, o latim permanece na Itália por muito tempo como a única língua usada na comunicação escrita, na literatura, em documentos e em lugares oficiais. Ainda em 1600, nas universidades de toda a Europa, fala-se em latim. 
Os primeiros documentos escritos no volgare, a língua falada por pessoas em uma determinada região e que agora chamamos de dialeto, são os placiti (sentenças) de Cassino (Frosinone) de 960 d.C. A linguagem vulgar escrita, por volta de 1200, também passa a ser usada em textos literários. De 1224 é o famoso “Cântico das Criaturas” de São Francisco de Assis, escrito em vulgar da Úmbria:

Altissimu, onnipotente, bon Signore,
tue so’ le laude, la gloria, e l’honore et onne benedictione.
Ad te solo, Altissimo, se konfano,
et nullu homo ène dignu te mentovare.
Laudato sie, mi’ Signore, cum tucte le tue creature,
spetialmente messor lo frate sole,
lo qual’è iorno, et allumini noi per lui.
Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:
de te, Altissimo, porta significatione.

Do mesmo período são os poemas dos poetas sicilianos da corte de Frederico II da Suábia (sudoeste da Alemanha). A poesia dos sicilianos é tão bem sucedida que é imediatamente imitada na Toscana. Neste momento, o k é muitas vezes uma alternativa para c; o “ gn” é reproduzido de diferentes maneiras (bagno, mas também bango, bangno, bannio, etc.). O italiano ainda usa o h latino (homo, honore) e a conjunção et. No vocabulário, entram inúmeras palavras afrancesadas (messere, cavaliere, scudiere, madama, ostaggio, mestiere, pensiero, coricare).
Com os árabes, presentes na Sicília de 827 a 1091, surgem no idioma italiano termos orientais, especialmente do mundo marítimo, econômico e científico, como magazzino, dogana, darsena, arsenale, tariffa, ammiraglio, zenit, nadir, algebra, cifra, zero, alambicco, sciroppo, arancio, albicocco, carciofo, zafferano.

O século XIV (Il Trecento)

O volgare começa a ter igual dignidade, em relação ao latim no uso literário. 
Entre os dois volgari italianos mais comuns, o siciliano e o toscano, vence o florentino toscano. Isso porque, dentro de poucas décadas, aparecem aqueles que se tornarão escritores famosos no vernáculo: Dante, Petrarca e Boccaccio, todos toscanos.
O primeiro é
Dante Alighieri, que escreve um trabalho colossal que se coloca entre a metafísica e a ficção científica, em sua fantástica jornada através do inferno, do purgatório e do paraíso. Em seguida, Francesco Petrarca, autor de belos poemas de amor para sua amada Laura. E então Giovanni Boccaccio, com o seu Decameron, uma coleção de histórias com um tema humorístico e erótico. Todos os três serão amplamente lidos por seus contemporâneos e terão muita influência, por competição, na linguagem de escritores de outras regiões italianas.

O século XV (Il Quattrocento)

Neste período, há um retorno ao latim através da redescoberta dos clássicos gregos e latinos. Os humanistas, como esses eruditos eram chamados, encontram textos, até então considerados perdidos e descobrem obras cuja existência era desconhecida. A admiração pelo mundo clássico cria o desejo de imitar os escritores antigos e o latim é considerado a única linguagem nobre da literatura.

Essa situação de decadência do volgare acaba apenas no final do século, quando alguns grandes autores (por exemplo, Lorenzo, o Magnífico) voltam a acreditar no seu potencial e passa a usá-lo em suas obras.

Por volta de 1470, com a difusão da imprensa também na Itália, houve uma maior circulação de livros e foi feita uma tentativa de procurar regras fixas que tornassem a escrita de palavras mais estável. A pontuação é fraca e o apóstrofo está ausente – sinal de pontuação que tem como função indicar a supressão de letras numa palavra, como l’anima del mondo. 

O século XVI (Il Cinquecento)

É o século do grande debate em torno da decisão sobre qual volgare deve ser utilizado. Há três posições principais: uns querem o florentino toscano dos grandes escritores do século XIV (Dante, Petrarca e Boccaccio), outros pensam que o italiano deve ser o conjunto das palavras mais elegantes de todas as línguas faladas da nação e, finalmente, alguns defendem o predomínio do toscano florentino moderno. 

A primeira proposta é a que prevalece, graças também aos grandes escritores da época como Pietro Bembo e Ludovico Ariosto. A ortografia no século XVI ainda é, em grande parte, a latina. A pontuação torna-se mais rica e mais regular e a ortografia é esclarecida com a introdução do apóstrofo.

Guerras e dominações estrangeiras levam um grande número de franceses e espanhóis para a Itália o que influencia o idioma italiano. Mas muitas também são as palavras que a Itália exporta, em vista da sua supremacia nos campos culturais e artísticos.

O século XVII (Il Seicento)

Surgem muitas inovações linguísticas. A necessidade de despertar a admiração no leitor leva os escritores a inventar, em grande número, até mesmo metáforas questionáveis, a criar novas palavras, a misturar expressões elegantes com outras da vida cotidiana, a combinar vozes dialetais e estrangeiras a palavras técnicas.
Mas em alguns lugares o respeito pela tradição ainda está muito vivo. Em 1612, a Accademia della Crusca , ainda a voz oficial da língua italiana, publica a primeira edição do seu vocabulário, baseado na linguagem usada pelos escritores florentinos do século XIV.
No léxico, muitas novas palavras são formadas com a adição de prefixos e sufixos (-issimo, -one, …). Do latim, muitas palavras científicas são criadas (cellula, condensare, iniezione, iperbole, prisma, scheletro) e jurídicas (aggressione, consulente, patrocinio).

O século XVIII (Il Settecento)

O Iluminismo e o culto da razão disseminam-se. Os Iluministas se propuseram a levar a verdade e as luzes da razão a todos os lugares, a abolir superstições e preconceitos visando o aperfeiçoamento espiritual e material de todos os homens. Isso também é encontrado na escrita que agora favorece a utilidade do conteúdo sobre a elegância da forma.
A forte influência da cultura iluminista francesa determina a entrada no léxico italiano de um grande número de termos afrancesados.

O século XIX (L’Ottocento)

O período é caracterizado pela controvérsia entre classicistas e românticos. Os primeiros, opostos ao abuso do francês dos escritores do século XVIII, preferem o retorno à elegância da linguagem da tradição e à imitação dos clássicos. Já os românticos gostariam de uma linguagem moderna e fresca, capaz de aderir à realidade do país para se tornar um instrumento para a unidade política do Reino da Itália.

O crescimento da burguesia média leva ao sucesso da tese romântica, porque professores, médicos, notários, técnicos e militares sentem a necessidade de uma linguagem de tom médio que substitua o dialeto, tanto pelas necessidades de sua profissão como pela simples conversa. Enquanto isso, a poesia permanecerá, por um longo tempo, ligada à tradição. 
Com a unidade política, o processo de unificação linguística da península tem seu início. Em 1877, a escolaridade compulsória chega a dois anos. No entanto, o analfabetismo é ainda a maior realidade: no final do século XIX, a grande maioria da população não é capaz de ler e escrever e só fala o dialeto.

Língua italiana e o fascismo

O que poucos sabem é que durante o período de 1922 a 1945, o governo e o ministério fascista de Mussolini impuseram o uso do italiano em toda a Itália. Aprender a língua italiana (e só isso) foi uma prioridade na educação.
Todas as minorias linguísticas foram perseguidas pelos comandos formados por Mussolini. O objetivo é assustá-los para erradicá-los.
Os professores tiveram que aprender e transferir conhecimento em italiano exclusivamente. A administração também era inteiramente italiana. Os direitos linguísticos das minorias foram suprimidos para fortalecer o italiano como língua oficial.
Todas as chamadas palavras “exóticas” com conotações estrangeiras também foram tiradas do vocabulário italiano comum. Assim, foram centenas de palavras importantes na língua italiana (substantivos, adjetivos, verbos, advérbios, etc.) influenciados por franceses, ingleses, árabes ou alemães que foram transformados ou foram submetidos a uma tradução.

O século XX (Il Novecento)

A língua italiana finalmente prevalece sobre os dialetos. Na primeira metade do século, o analfabetismo é drasticamente reduzido, graças, especialmente, à escolarização em massa e ao trabalho do rádio e da televisão. Até mesmo a linguagem da poesia liberta-se das restrições da tradição. Muito da linguagem adota o estilo jornalístico.
A chegada dos anglicismos é enorme, determinada pelo grande prestígio alcançado, nos campos científicos, tecnológicos e econômicos, pelos países de língua inglesa, tais como baby sitter, bestseller, blue jeans, clacson, computer, guard rail, hostess, jeep, killer, pullover, quiz, rock, self service, spray, stop, supermarket, weekend.

Nos dias atuais…

Atualmente, o italiano ocupa a quarta posição entre as línguas mais estudadas do mundo, com dois milhões de estudantes no exterior. No Brasil, no ano acadêmico 2016/2017, foram 78.628 pessoas a estudar o idioma, segundo o Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Internacional da Itália. 

A língua italiana é associada ao que há de mais belo no mundo. Da literatura à história, da moda à gastronomia, o italiano é imbatível em relação a todos os demais idiomas, no que se refere ao significado que carrega de excelência, de beleza e de bom gosto.

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Fonte: superprof.com.br, Dilit (Divulgazione Lingua Italiana)

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